17.01.2010 05:59 Age: 232 days
Regresso ao Presente
By: Victor Silva

150º aniversário da Igreja em Taiwan

Peregrinação em bicicleta até ao mais antigo templo católico de Taiwan

Baptismos na vigília pascal

Espiritanos e aspirantes no Vietname
Espero que tenham vivido um Natal cheio de Deus. Para todos nós, aliás, ser missionários é um convite a celebrar Natal cada dia, a mergulhar cada vez mais profundamente no mistério de Deus que escolhe viver no meio de nós.
Tenho a impressão de que, desde que celebrámos o segundo milénio deste natal de Jesus, apanhámos o jeito aos aniversários: cada ano celebramos uma data deles, ao nível da Igreja, da congregação e dos diversos grupos que acompanhamos. Acho bem. Queremos celebrar talvez por sentirmos necessidade de beber nas fontes e reavivar o fogo com o qual fomos forjados, como cristãos e missionários, religiosos e leigos. Colocamos um olho no passado e outro no presente, mas sem copiar, pois isso seria fazer batota debaixo das barbas do Espírito Santo que é sempre novo, criativo. Até mesmo nós que estamos em Taiwan há pouco mais de uma década já celebrámos o nosso aniversário por duas vezes com alguma pompa e circunstância.
Foi também com pompa e circunstância que, em novembro passado, a Igreja de Taiwan viveu o encerramento das celebrações dos 150 anos de evangelização nesta Ilha Formosa. É claro que o cristianismo mexe nesta ilha desde esta foi “descoberta” para o ocidente há cerca de cinco séculos atrás. Curiosamente, esta ilha foi incluída na Diocese do Funchal em 1514 como jurisdição missionária. Algumas décadas mais tarde passou a fazer parte da primeira diocese chinesa: Macau. A partir daí a diocese foi-se dividindo à medida que a Igreja se foi desenvolvendo na China. Os 150 que acabámos de celebrar englobam o período desde 1858, quando o governo da dinastia Qing assinou um tratado em que permitia missionários estrangeiros desenvolver trabalho de evangelização em alguns portos e regiões da China. Nessa altura, a Santa Sé confiou aos padres Dominicanos a restauração das missões católicas em Taiwan. A primeira missão foi estabelecida em Kaohsiung, nas margens do “rio do amor”. Esta importante cidade portuária, no sul da ilha, é agora a segunda maior do país, e foi a primeira diocese de Taiwan, em 1913.
Hoje há sete dioceses no país e cerca de 320 mil católicos (1% da população), ainda uma minoria, sobretudo se contarmos com uma parte de católicos cuja vida de fé vai pouco para além dos livros de registo de baptismo da paróquia onde os seus nomes estão escritos. Mas também nos deparamos a cada passo com testemunhos de fé que nos deixam literalmente de boca e coração abertos. Por tudo isso recordamos em acção de graças este percurso relativamente curto percorrido, com os olhos postos no presente e na missão evangelizadora da Igreja.
No encerramento do ano paulino – mais um aniversário – desafiei o presidente do conselho paroquial de uma das nossas comunidades e outros fiéis a percorrer de bicicleta os quatrocentos e cinquenta quilómetros que separam a nossa igreja do mais antigo templo católico existente, no sul de Taiwan: uma viagem simbólica para nos recordar da identidade missionária da Igreja.
Proclamar o evangelho neste contexto é como percorrer o caminho de Paulo – sem esquecer mesmo o caminho de Damasco, de conversão pessoal. Falar do evangelho e preparar para o baptismo alguém que cresceu a ir ao templo pagão oferecer incenso é algo para o qual os longos anos de formação em Portugal só me prepararam em teoria.
Difícil? Mais do que imaginava. Entusiasmante? Mais do que imaginava! Apetece-me dizer como um colega meu em Moçambique: não trocava isto por nada deste mundo!
Um dos trabalhos que me foi confiado recentemente é a coordenação e animação dos leigos missionários ao nível da diocese. De algum tempo para cá já tenho vindo a colaborar na formação de leigos, com aulas e outras actividades. Esta nova responsabilidade não é fácil, mas que vale bem a pena e está bem na linha daquilo que como espiritanos costumamos fazer um pouco por todo o lado: para além de anunciar o evangelho e formar comunidades, procuramos que estas se tornem evangelizadoras, missionárias.
Ao nível da Congregação do Espírito Santo celebramos um outro aniversário: 300 da morte de Poullart des Places. Mais uma vez, somos convidados a viajar até às raízes desta família religiosa, voltando-nos agora, de uma maneira especial, para este jovem fundador.
Este aniversário parece-me ter um sabor especial para nós aqui na nossa circunscrição de Taiwan e Vietname. Curiosamente, iniciámos nós também há pouco tempo, em Saigão, uma comunidade com 12 jovens aspirantes à vida missionária espiritana. Sem casa própria, vamo-nos movendo e adaptando, em instalações alugadas, à medida que as necessidades exigem e os condicionalismos permitem. Sem reconhecimento legal nem grande apoio mesmo da parte da igreja local, procuramos viver esta precariedade ao jeito de Poullart des Places. Com ele partilhamos a juventude e talvez até alguma inexperiência, mas também a audácia e a disponibilidade. Saibamos também, como ele, pedir ao Senhor que nos indique o caminho e nos dê a vontade de seguir por ele.
Nas Filipinas, assistimos há pouco tempo a algo inédito na história da nossa congregação: a profissão religiosa de dois jovens daquele país. Iniciaram agora a sua formação teológica em Manila. Também ali alugamos uma casa para acolher esta nova comunidade de estudantes e seu formador. Sonhamos agora com a possibilidade de aí nos instalarmos mais permanentemente, adquirindo aquela propriedade, para depois a transformar num centro capaz de acolher jovens espiritanos em formação das Filipinas, Vietname, Taiwan e China. Estamos conscientes das nossas limitações face a tal empreendimento, e de que há um caminho longo e pesado pela frente, muitas portas a bater. Mas também estamos conscientes de que, como outrora, se este é o caminho a seguir, Deus será o verdadeiro empreendedor, do jeito e no ritmo que ele quiser.
Celebrar aniversários é um convite a viver o presente com o entusiasmo da primeira vez. Aqui, no sudoeste asiático, grande parte daquilo que vivemos, vivemo-lo mesmo pela primeira vez.
Obrigado pela vossa oração e apoio. Apesar da distância – estamos aqui no que vocês desse lado gostam de chamar o extremo oriente, ou oriente longínquo (Far East) – sentimo-vos muito próximos de nós. Obrigado.
Para nos podermos continuar a acompanhar de perto, já sabem onde nos podem encontrar: www.bythewell.org